"...o amor é uma grande idealização. Sim, mas e daí? Que são os sonhos senão grandes idealizações? E, portanto, o que é o psicanalista senão aquele com quem vivemos um amor?"
Alguém muda alguém? Pergunta capciosa. De chofre, duas respostas possíveis:
"Claro que não! Ninguém muda ninguém, a mudança parte da força de
vontade de cada um..."
ou
"Sim, ninguém consegue mudar sozinho. Sempre precisamos de alguma ajuda...."
Quem está com a razão? Em parte,
ambos.
Em algum lugar, Freud nos diz que
a Psicanálise teria como limite as margens do rio. A tarefa seria ajudar o
analisante a encontrar o fio da meada, cabendo-lhe inteira liberdade em decidir
por entrar ou não.
O que o levou a querer
aproximar-se do rio?
O analista? A análise? O
auto-conhecimento? A resposta precisa seria: o amor pelo analista.
Alguém muda alguém?
Se tomarmos "mudar" por
"transformar", sim! Sem dúvida.
Ora, o que faz a criança recusar
suas tendências agressivas e entrar na cultura senão o amor pelos pais? Logo, é
pelo amor aos pais que a criança "muda de idéia".
E, quem amamos? Amamos aquele em
quem encontramos uma idealização específica: a verdade sobre nós. Com meu
objeto de amor, encontro com minha verdade oculta, secreta. Nenhuma experiência
subjetiva se equipara ao amor quando se trata de motivação para mudanças.
Mudamos para não perder um amor,
para conquistar um amor, para ter a possibilidade de viver um amor, etc.
Ok, o amor é uma grande
idealização. Sim, mas e daí? Que são os sonhos senão grandes idealizações? E,
portanto, o que é o psicanalista senão aquele com quem vivemos um amor?
Se o narcisismo é um componente
fundamental da libido, se o amor é a experiência de ser amado por um ideal
(nosso) e se isso, mais do que tudo, nos impulsiona a deixar o fastio do
sintoma, que outra coisa pode se valer o analista para alcançar seu desejo?
E qual é o desejo do analista?
O desejo do analista eu não sei,
não entra neste jogo. O desejo de analista é fazer a análise e o analisante
desenvolver o desejo por amar e trabalhar.
Trata-se de uma trapaça chamada
de "manejo transferencial". O analista maneja o amor transferencial
de seu analisante para fazê-lo (em nome deste amor) querer aproximar-se do rio.
Se ele livremente decidir por
entrar no rio, seguirá o curso de seu desejo e, no melhor dos casos, nem se
lembrará do analista, seu "amor de travessia".

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